Merenda nos últimos 12 anos era de baixa qualidade e insuficiente, relatam cozinheiras



Ao longo de 12 anos, a merenda escolar de Ourinhos “frequentou” constantemente o noticiário de polícia, sendo às vezes destaque nacional
Alimentos de qualidade duvidosa - e muitas vezes podres - eram fornecidos por uma empresa investigada na Máfia da Merenda é um dos principais escândalos que afetaram principalmente as crianças que, em muitos casos vão à escola apenas para se alimentar, mas ao pegar o prato encontravam arroz com salsicha.

"Esse cardápio era frequente. Ou era arroz com ovo ou arroz com salsicha. Às vezes fazíamos omelete ou risoto de ovo para variar porque as crianças reclamavam”, declara a cozinheira Marina Caetano Moreira, que há 13 atua na rede municipal de ensino.

Ela e a colega Rosângela Fernandes dos Reis, cozinheira do município há 14 anos, criticam a qualidade da merenda fornecida as crianças nos últimos 12 anos. “Quando a merenda foi terceirizada as porções foram reduzidas. Um prato não era suficiente para alimentar bem uma criança. Elas até podiam repetir, mas como a quantidade era extremamente controlada, ás vezes não dava para todo mundo comer duas vezes”, revela Rosângela, que já passou por cinco escolas municipais ao longo da carreira.

A qualidade dos alimentos fornecidos para fazer a merenda foi questionada pelas cozinheiras conforme se lembravam dos fatos que ficaram marcados em suas memórias. Segundo Marina, que já passou por oito unidades de ensino do município, a carne moída que começou a ser enviada chegava sempre com muita gordura e também era frequente os pães chegarem mofados. “Direto vinha mofado. Os produtos de varejão também eram de péssima qualidade. As alfaces, como vinham de muito longe, chegavam sempre murchas, os tomates, muitos estavam estragados e às vezes as bananas vinham muito passadas ou verdes”, recorda Marina.

ALGUNS FATOS QUE MARCARAM PAIS E MÃES DE ALUNOS QUANTO A MERENDA ESCOLAR NOS ÚLTIMOS 12 ANOS
CRIME FEDERAL - Ainda em 2009 o escândalo da merenda no município chegou aos Tribunais Federais. O Conselho de Alimentação de Ourinhos, órgão que fiscaliza a merenda escolar na cidade rejeitou as contas do setor e encaminhou denúncia ao Ministério Público Federal. Entre as irregularidades constatadas estavam materiais de cozinha fora dos padrões, porções menores de comida servidas aos alunos e itens alimentícios com custos exorbitantes. Foi constatado, por exemplo, que Ourinhos integrava um grupo de 610 cidades com a merenda mais cara do Brasil, que possui o total de 5.561 municípios. O Conselho denunciou ainda a falta de fiscalização da Vigilância Sanitária e questionou a qualidade dos alimentos. Carne com muito sebo na merenda era comum, segundo o órgão fiscalizador.

CARNE PODRE - O cenário desolador da merenda escolar de Ourinhos conseguiu ainda ficar pior. Também em 2009, foram apreendidos 700 Kg de carne estragada e salsichas que seriam distribuídas nas escolas municipais. Se não fosse denúncia anônima acionar a Polícia Militar, os alimentos poderiam ter sido consumidos, já que 500Kg já haviam sido entregues nas escolas.

CONDENAÇÃO - Em junho de 2012, durante administração do grupo político que se perpetuou na cidade por 12 anos, a imprensa da região veiculou a condenação do ex-prefeito, secretários e assessores por irregularidades na merenda escolar. O TCU (Tribunal de Contas da União) estipulou multa de R$ 99 mil pela conivência e negligência em relação à empresa que fornecia merenda em Ourinhos, a qual estava envolvida no escândalo que, entre outros métodos escusos, se caracterizava pelo pagamento de propina a agentes públicos para dar continuidade ao contrato de fornecimento de alimentos. Segundo acórdão do Tribunal, apesar de conhecer os métodos irregulares utilizados pela empresa da merenda, a prefeitura apenas revogou o contrato, não tomando medidas judiciais para tentar sanar os cofres públicos lesados.

ARROZ COM SALSICHA - Em abril de 2013, preocupadas com as constantes manchetes envolvendo a péssima alimentação dos estudantes da rede municipal, mães de alunos decidiram averiguar o cardápio das escolas. Ao constatarem a merenda de qualidade duvidosa procuraram a imprensa ourinhense para denunciar o descaso. Elas reclamaram não só a qualidade dos alimentos, mas também o valor nutricional do cardápio. Uma das crianças relatou à mãe que havia comido apenas arroz e omelete. Outra estudante revelou que durante uma semana ficaram sem comer salada ou frutas. Muitas vezes, o prato servido continha arroz com salsicha ou ovo.

PRODUTO ESTRAGADO - Em agosto de 2016 um caminhão com cebolas impróprias para o consumo que seriam distribuídas na escola Domingos Camerlingo Caló foi conduzido à polícia. A unidade de ensino desconfiou da qualidade do alimento e fez a denúncia. Os responsáveis pela carga foram ouvidos e liberados, retornando à cidade de origem junto com a mercadoria.

FRAUDE - Após novas denúncias do Conselho de Alimentação Escolar à Câmara Municipal de Ourinhos, os vereadores instalaram em novembro de 2016, uma CAR (Comissão de Assuntos Relevantes) para investigar supostas fraudes no fornecimento de produtos hortifrutigranjeiros para a merenda com a conivência da administração pública. Agricultores familiares denunciaram um esquema de intermédio de produção, o que é proibido em contrato. A Associação de Produtores na época estaria comprando produtos de terceiros a preços mais baratos e repassando ao município com uma margem maior, sendo que o contrato estipula que os alimentos fornecidos à prefeitura devem ser produzidos pelos próprios agricultores cadastrados no projeto de agricultura familiar.

Fonte: Assessoria PMO