O vinho como prevenção do abuso de álcool

Foto gentilmente cedida pelo bar Santo Empório diretamente de sua adega (R. Rio de Janeiro, 739, Centro, Ourinhos-SP).


Como coibir o abuso de álcool entre os jovens brasileiros? Certamente não há uma fórmula mágica. Não seria possível, tampouco justo, a pura e simples proibição, isto é, uma espécie de “Lei Seca” no Brasil do século XXI. Não se pode estender a todos uma proibição que deveria afetar apenas os que fazem uso errado de bebidas alcoólicas.

No entanto, é forçoso admitir, mesmo para o mais entusiasta e refinado enófilo, que qualquer bebida alcoólica pode se tornar uma droga e causar dependência, quando usada de maneira excessiva e sem critérios. Naturalmente, os jovens e as pessoas com traumas pessoais constituem os grupos mais sujeitos à tentação do abuso de qualquer droga, lícita ou ilícita.

Isto posto, deve-se fazer uma distinção entre as várias bebidas, pois não acredito que uma pessoa possa se tornar um alcoólatra consumindo apenas vinho nas refeições. Há uma grande diferença entre o vinho e as outras bebidas. Não é por acaso que a bebida de Baco foi objeto de louvor explícito de grandes poetas, de Homero a Dante, de Baudelaire a Fernando Pessoa. Trata-se de uma bebida milenar, cujos efeitos benéficos já eram notados pelos antigos gregos e cuja eficácia na prevenção de doenças cardíacas, se usado moderadamente, já foi comprovada pelos pesquisadores contemporâneos.



Desse modo, pode parecer estranho e até contraditório, sobretudo num país como o Brasil, estimular a difusão de uma bebida “nobre” como o vinho para combater os efeitos perniciosos de outras bebidas, sobretudo os destilados “super-alcoólicos”. Evidentemente, a difusão do vinho só faria se sentido se acompanhada de uma campanha educacional visando à disseminação de informações sobre a história, sobre as referências na literatura e sobre os efeitos benéficos para a saúde, sobretudo do tinto. A moderação seria uma decorrência natural de quem quisesse se aproximar do mundo da enologia com curiosidade científico-cultural, evitando transformá-lo em mais um fator de alienação viciante.

Muitos nutricionistas e médicos torcem o nariz para o vinho, tratando-o  como outra bebida alcoólica qualquer, desprezando até mesmo as vantagens para a saúde que, comprovadamente, podem ser obtidas com o uso moderado desta bebida. Outros propõem o suco de uva como alternativa, esquecendo-se do prazer sensorial que pode ser proporcionado pelos vinhos de qualidade, necessariamente alcoólicos, além de toda a história cultural e literária que os acompanham.

O maior empecilho, principalmente em países como o Brasil, não é, como pensam alguns, o clima tropical. É possível adaptar o consumo moderado de vinho até mesmo ao clima amazônico, mas não há como evitar que um vinho de razoável qualidade alcance preços proibitivos para a maioria da população. No entanto, se o consumo aumentasse os preços tenderiam a cair, como de resto acontece em países vizinhos como a Argentina e o Chile.

Qualquer campanha que recomende o uso moderado de bebidas não atingirá o seu objetivo se omitir o fato de que é preciso refletir sobre o relacionamento entre os cidadãos, cada vez mais frio e distante, cada vez mais mediado pelo uso e abuso de tecnologias que constituem um convite à solidão, sobretudo nos ambientes urbanos. Não há diálogo, principalmente entre os jovens e os educadores, sejam eles os profissionais da escola, sejam eles os próprios pais. Também não há diálogos consistentes entre os próprios grupos de jovens. Não havendo conversa franca e prazerosa, não há como evitar a tentação das drogas para provocar momentos de euforia e de intenso prazer que substituem o contato com o mundo real, feito de direitos, de alguns privilégios e de prazeres fugazes, mas também de deveres e responsabilidades.

Enfim, não acredito que se possa hipocritamente propor moderação quando os relacionamentos sociais convidam à exasperação e ao excesso de ansiedade e de falsas expectativas, do mesmo modo que é difícil ou até impossível conter o consumismo (outro vício moderno gravíssimo) quando os cidadãos são cotidianamente bombardeados pela propaganda que invade os lares.

Concluindo: o uso responsável do vinho, associado a uma aproximação cultural dessa nobre bebida, convidando ao prazer que ele pode proporcionar, se acompanhado de moderação, certamente não será uma solução definitiva, mas pode ser o começo de uma mudança séria, com bons resultados em longo prazo.


Sérgio Mauro é professor da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara.